quarta-feira, novembro 17, 2010
O sábado, 13 de novembro de 2010, começou complicado, com chuvas e trovões. Estava marcada, há meses, uma viagem a Paraty passando por cima da serra do Mar, um percurso de mais de 200km para serem percorridos em três dias. O tempo não nos demoveu e pegamos o asfalto passando por Bananal, Arapeí e chegando a São José do Barreiro para almoçar.
Começando a subida e vendo São José do Barreiro ficar cada vez menor lá embaixo, vou lembrando o que li sobre a formação da serra do Mar. Há 200 milhões de anos, no caos, a crosta da Terra estava num formidável jogo de forças. O Gonduana se fragmentava, o grande continente meridional se partia, mas não sem oferecer resistência gigantesca. O que hoje é a costa brasileira, naquela época, opunha-se tenazmente a se separar do que agora é África. Então, num momento, a grossa placa não resiste a poderosa corrente no manto do planeta e se rompe. Pense numa borracha bem esticada rebentando e a lambada que ela dá voltando, foi isto, esta força cíclica, que formou estas serras, que levantou os velhos granitos a 1.800m. Íamos lá para cima.
Foram 22 km de uma subida de 1.000m, quer dizer, a cada quilômetro subíamos 50m ou a altura de um prédio de 16 andares. Os primeiros 8 km foram sem dificuldade, mas daí para cima a lama e o terreno errodido fez a maioria de nós desmontar e subir empurrando as bikes. A subida parecia nunca terminar. O nevoeiro envolvia tudo. Os pássaros da noite nos assustavam piando invisíveis a nossa volta. Chegamos no Lajeado às 22h, levamos 6h subindo num terreno embarreado pela chuvas desta fria primavera.
A velha casa de fazenda com sua sala de assoalho de largas tábuas corrida e a lareira queimando lenha de araucária aquece e dá preguiça aos corpos moídos da subida. Banho tomado, roupa lavada e posta para secar perto do calor da lareira, jantamos uma macarrona com linguiça e ficamos conversando em torno do fogo. O sono chega rapidinho.
Consigo um tempo para caminhar pelas veredas úmidas de chuva. Rolinho, cão da pousada me acompanha e me mostra o trilho na floresta. Parece que estamos num bosque da Áustria ou na Floresta Negra, na Alemanha. Que mudança desde que isto aqui era uma montanha careca feita de calcário e rochas contendo uma mistura louca de muitos minerais. Não havia grama, nem araucárias, nem água cristalina rolava pelas pedras. Não havia homens para presenciar a era do caos, ou como diz na Bíblia: quando a Terra era sem forma e vazia. Mas milhões de seres presenciaram o tempo em que forças titânicas contorciam o planeta e por vários meios eles fizeram os humanos adivinhar aqueles terríveis momentos. Os gregos contaram tudo na sua Mitologia e chamaram-nos de mundo dos Titãs. Mas agora só existe a paz nestas montanhas.
sexta-feira, junho 25, 2010
Indo bem longeQuando um ciclista sai para fazer uma trilha desconhecida, longe de sua casa, os conhecidos o chamam de maluco, não entendem porquê alguém precisa fazer um esforço desses às custas de nada. Quem o ama, conhece as inquietudes que lhe vão pela alma, sabe que seu amor veio nesta vida com uma alma agitada e só por isto se encontraram e se escolheram. Assim, abençoa sua partida pedindo a Deus que ele volte logo.
Vejo isto nas viagens incansáveis dos vikings, conforme conta o livro A Cruzada de Ouro: "Mas foram dominados por uma onda de excitação e fizeram um caminho bem longo, estavam agora, bem longe da pátria deles. A presença viking aqui em L'Anse aux Meadows, na América do Norte, está totalmente documentada, corroborada pela arqueologia. Meio enlouquecidos por causa da sede e do cansaço, alguns deles ainda estropiados por seus ferimentos em Stamford Bridge, eles devem ter ficado aterrorizados, mas estimulados, temerosos de a qualquer momento chegar inesperadamente ao fim do mundo, mas aproximando-se a cada dia de Ragnarok, da prova final onde se juntariam à corajosa batalha de Odin e Thor pela última vez, com suas grandes achas-de-armas. Para nós o trópico parece benigno, mas para os vikings ele deve ter sido uma visão do inferno, um aglomerado de aura vermelha que parecia arrastá-los para mais perto de seu destino".
Uma pessoa comum dificilmente pode compreender a mistura de sede, fome, frio, músculos doloridos e membros feridos, envolvidos por ansiedade e medo, que sente o homem e a mulher que testam suas forças, não, suas fraquezas. Mas é uma comoção física que aproxima a pessoa de uma experiência espiritual. Os sentidos ficam tão excitados, a dor é tão real que se parece com uma revelação, um momento glorioso numa batalha de anjos. Essa vivência fica registrada na alma, passa a fazer parte das verdadeiras riquezas que um espírito ao passar pela Terra leva para eternidade. Não fique satisfeito com uma vida comum, tente uma coisa nova e mais forte que te acrescente algo. Seja um viking.
terça-feira, junho 15, 2010

Pensamentos de um ciclista solitário
Pé, dá-lhe pé, forçando a bike nas subidas, ele e sua máquina sozinhos, forçosamente o homem questiona sua identidade. Os pensamentos correm soltos adiante da bike. É o fenômeno da revelação que acomete com quem está numa empreitada devocional. Então, comecei a pensar: de que é feito o homem? Lembrei das palavras no começo da Bíblia: "E Deus fez o homem do pó da Terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida e o homem se tornou uma alma vivente". É tão maravilhoso poder se dar conta de que se é um vivente no meio deste mundo cheio de vida!

O frio deste 13/06/2010 está forte e mesmo nossa estrela queimado seu combustível com vontade mal dá conta de evitar que minhas mãos, cobertas por luvas de lã e crispadas nos bar hends, congelem. O Paraíba do Sul solta um vapor tremido, páro pra tomar um gole de água fria e olhando para trás vejo seu belo leito coberto de mata. O dia começa explendoroso. Estou só, com meus pensamentos.

Volto a refletir e sinto que falta algo, nesta descrição da Bíblia. Recapitulando: Cada humano é feito do mesmo modo, com elementos presentes em nosso planeta: cálcio, ferro, manganês (são mais de cem) e o maravilhoso carbono. São átomos diferentes, em cada um as subpartículas (uns com mais outros com menos) estão arrumadas de formas diferentes. Então, ordenados em forma de colares, tornam-se moléculas, que têm o dom da vida. É só isto? Não sei se são os hormônios acelerados no meu sangue que me faz pensar tanto.

Continuo pedalando. Minhas paradas são breves. Estou andando desde ás 7 horas e entre fotografias, lanche em Quatis e almoço em Carlos Euler não fiquei parado nem uma hora. Aqui tomo fôlego na subida de Carlos Euler. Tudo me distrai, mas é só me sentar novamente no selim que os pensamentos disparam. Reflexões.
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