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domingo, junho 12, 2016

Robertão, a serra cheia de surpresas

Não, você ainda não ouviu falar de knickpoints, é um estrangeirismo usado pelos estudiosos de geologia. Acontece que na difícil trilha do Robertão vimos diversos exemplos de knickpoints sem, no entanto, reconhece-los. 
- Diz logo o que é isso, Zé.
Diz a professora de Geologia da UFRJ Telma Mendes da Silva: Eles são identificados na paisagem como “degraus”, de diferentes dimensões, ao longo de um perfil longitudinal de um rio e cujo comportamento é reconhecido pelas características de fluxo. De acordo com Crosby & Wipple (2004), knickpoints estão associados com a dinâmica de ajustamento de canais fluviais que acompanham alterações climáticas e tectônicas. Vários knickpoints – 35,8% dos casos estudados no médio Vale do rio Paraíba – encontram-se concentrados na porção NE da serra de Nossa Senhora do Amparo.

Vou explicar. Desde que começamos a forte subida da serra passamos pelo Ribeirão Claro inúmeras vezes, isto porque a serra sofreu a formação de “degraus” que mudam a direção do leito do ribeirão. 
Para você ter uma ideia, em menos de 5km subimos de 490m/nível do mar para 990m em várias subidas. 

É um grande esforço, as pernas e os braços trabalham como pistões sincronizados e rítmicos de uma máquina humana. O mundo vai ficando pequeno e a superfície da região sul fluminense mais parece um encapelado mar de morros.

Quando se chega lá no topo, depois de uma porteira, 

se entra num pasto de altitude e logo à esquerda tem um trilho que nos leva a atravessar o ribeirão em seu começo. Com um ano bem úmido, de muita chuva, tivemos de atravessar um banhado cheio.

Depois de rodar por trilhos estreitos chegamos a “porteira do alto”, onde o pedal ficaria adrenalina pura. Ali tem um trilho que desce com o despenhadeiro à direita. Mas não encontramos o trilho, quer dizer, achamos mas debaixo de um matagal. 

O tempo bem irrigado fez o mato crescer muito e pouca gente tem passado por ali. Resultado, tivemos de abrir o caminho nos peitos.
Mas chegamos embaixo e logo estávamos no asfalto Amparo-Sta. Isabel. Foi um belo pedal para quem não tem medo de aventura e do imponderável.

Aquela serra guarda muitos caminhos, e já tive o prazer de conhecer alguns.

domingo, maio 08, 2016

Mistérios do ciclismo.

Almoçando nos meandros da serra do Matoso o amigo Luciano peguntou: Não passamos de 500 m de altitude, quando vamos começar a subir? Ele falou isso porque íamos à rampa de asa-delta e ele imaginava que o pessoal saltava de mais de 1000 m. (foto do colega Leandro)

Porém sua inquirição me chamou atenção para um detalhe: como é possível termos subido 3.134 m (os colegas usam um programa de computador no celular, o Strava, que registra o caminho, o esforço que fizemos e quanto subimos) e não passarmos de 500 m de altitude? 

Matutei. O Brasil tem uma topografia em forma de escada. O mar e a faixa litorânea, depois a serra do mar que leva ao vale do Paraíba, e a Mantiqueira levando ao planalto central. Quando saímos de Volta Redonda estávamos a 400 m do nível do mar. 

Pedalando para Rio Claro temos a impressão de estar descendo, mas lá continuávamos em 400 m.

Pegamos a estrada de Mangaratiba até a serra do Piloto que fica a 400 m e então subimos para o Matoso a pouco mais de 500 m. 

Depois do almoço, quando descemos para Itaguaí, na rampa de salto onde se descortina a baixada espraiada lá embaixo, ela também fica a 400 m.
Então, onde está a resposta a questão?
Está no aviso que o amigo Ademar nos deu quando partimos da rodoviária de Rio Claro: agora vai começar o tobogã! É isso. Todo caminho é um incessante sobe e desce e a impressão que os sentidos nos dão é que estamos só subindo.

Na realidade ficamos na mesma faixa de altitude mas fazendo um tremendo esforço nos sobe e desce do caminho.
Porém, foi um belo pedal. Como sempre vimos muita coisa. Meninos de Santa Cruz, do Rio, fazendo rapel numa ponte, 

cavaleiros e belas amazonas passando faceiras pelos ciclistas, 

um almoço num lugar muito lindo, a vista da baixada visto do alto da serra e 

o silêncio e a tranquilidade de caminhos pouco circulados.

segunda-feira, maio 02, 2016

O sol faz desenhos de luz no chão.

Estava frio, era longe, o ônibus partia às 5 h; precisa-se ter muita vontade de pedalar para enfrentar todos estes obstáculos. 

Mas ver o dia amanhecer, o dia chuvoso clarear em muitas cores, encontrar o amigo e sair pedalando compensou todo esforço. 

Estávamos em Perequê, Angra dos Reis, faixa litorânea cercada de serras. E fomos nos embrenhando para aqueles sertões. 

A vegetação é diferente, os rios que vem da montanha cortam a estrada e a sombra das matas deixa o sol fazer desenhos de luz no chão. Foi um belo pedal.

quarta-feira, abril 27, 2016

Este belo amanhecer, fiz ele para você.

Estou lendo um bom livro A GRANDE CASA DE DEUS, ele não é sobre ciclismo, mas leia este pedaço, por favor:
"O pai passou boa parte da noite acordado montando a bicicleta nova para o filho. Por que ele faz isto? Porque ele quer ver os olhos do filho se arregalarem e espera ouvir ele falar: Papai, você fez ela pra mim?!
É por isto que Deus fez [usando as leis naturais que Ele também elaborou] um amanhecer cheio de dourados, uma árvore carregada de flores lilases e um céu estrelado com uma grande lua prateada. Ele fez tudo para nos ver prender a respiração, para ver a gente parar e admirar e para nos fazer pensar só em coisas boas.

Todos os dias o Criador está prestando atenção em cada um de nós, à espera de que descubramos os presentes que Ele fez pra nós.
Então, saia da toca, acorde mais cedo, esfregue os olhos e saia e veja os lindos presentes. Ele está esperando que seus olhos se arregalem e seu coração salte uma batida. E neste momento de silêncio e admiração, escute, você vai ouvi-lo sussurrar: Fiz isto pra você.

domingo, abril 17, 2016

Os olhos ficam atarantados com tantos lugares bonitos.


Nas terras de Valença onde os negros foram escravizados por décadas e onde construíram caminhos calçados de pedra e casarões de fazenda e plantaram e colheram café, quando se vence a serra da Glória 

damos com uma estrada chamada do Caixão. É um sobe e desce entre vales apertados por morros e encostas rochosas até chegar em Taboas e o asfalto para Rio das Flores. 

Naquela passagem que coleia em curvas, subidas e descidas os olhos ficam atarantados com tantos lugares bonitos.

É um sítio com um lago cercado de buganvílias e acácias,

ou uma casa de fazenda entre o arvoredo que ensombrece e refresca, 

uma pedreira que surge do chão como um gigante

e nos altos o infinito se desdobra em verdejantes encostas, vales, gargantas e montanhas no horizonte. 

Um pedal por trilhas assim, sem carros nos assustando, sem comércio barulhento e sem desavenças e competições é um refrigério para a alma. (foto do amigo Paulo Renato)

domingo, abril 03, 2016

Canção Nova, pedalando com fé

Para fazer um grande pedal é preciso: desejar de coração, ter condições físicas e dispor de algum dinheiro e tempo. Reunindo todas estas condições fui à Cachoeira Paulista, 120 km pela Dutra, para assistir à missa da Misericórdia feita pelo padre Jonas Abib.

Não precisei sair cedo, assim às 7 h deixei Volta Redonda, passei por Barra Mansa e peguei a Dutra. Num pedal longo a diversidade de ambientes e belezas naturais ajudam muito, mas uma rodovia federal geralmente é estéril. É só para passar apressado sem olhar a paisagem, que nela é bem fraca. Ainda assim fotografei rios correndo mansamente e serras em sua posição inflexível.


Como planejei, e isto é fundamental num longo pedal, cheguei no alto da serra de Cruzeiro às 14 horas, 

desci como uma flecha e depois de uma curva vi rebrilhar em prata a igreja da Canção Nova. Lá passei por momentos de devoção, 

emoção e gratidão. 

Assim mesmo, tudo no aumentativo.

domingo, março 27, 2016

Serra de Nova Friburgo e seus imensos blocos de rocha.

Antes de viajar para pedalar por entre as serras de Nova Friburgo 

fui estudar o trabalho do professor e doutor na UERJ, Miguel Tupinambá, e isto meu preparou para entender e mais admirar o que vi. 

Geologia é uma ciência com um vasto vocabulário em que as palavras são misteriosas e de difícil entendimento para o leigo: “A Folha Nova Friburgo encontra-se cortada por mais de uma dezena de zonas de cisalhamento dúcteis-rupteis transtracionais de direção noroeste. Os blocos gerados por estas estruturas formam um conjunto de graben e horsts típicos de ambiente distensional. 

Os corpos graníticos da Suíte Nova Friburgo, com sua forma de lacólitos e sills, tem seus condutos localizados ao longo destas estruturas e se cristalizaram entre 500 e 490 Ma na forma de lacólitos e soleiras, formas próprias de crosta superior”. 
Ligue-se nesta frase: “Os blocos gerados por estas estruturas formam um conjunto de graben e horsts”. Estas formações tornam o pedal uma andança de formiguinhas em meio a imensos humanos.

Na formação desse trecho de serra houve afundamentos de terreno (gráben) enquanto imensas pedreiras se elevaram (horsts). Diferente da região sul fluminense em que o planalto foi esculpido por rios e riachos ganhando a aparência de um mar de morros, na serra de Nova Friburgo saiu do núcleo da Terra imensas quantidades de magma que ficaram semeados pelas bordas da serrania. Afundamento de terrenos só constituídos por sedimentos formam vales por onde pedalamos enquanto à nossa volta, imensas pedreiras nos olham como gigantes que se formaram há 500 milhões de anos.

Dá uma impressão formidável.


E pedalamos muito. No primeiro dia 90km no segundo mais de 110km.     

segunda-feira, março 21, 2016

Pela serra de Nova Friburgo

Minha bicicleta é meu meio de transporte principal, seja a trabalho ou a passeio. Neste fim de semana vou pedalar na Serra dos 3 Picos.

- Onde fica, Zé?
Vou transcrever um trecho de um estudo geológico dessa serra para você entender melhor.
“Ela está situada na região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Na porção meridional da escarpa da Serra do Mar fica um local preservado, é o Parque Estadual dos Três Picos e unidades de conservação adjacentes”.
Essa serra é mais conhecida como Nova Friburgo. Então ele descreve a porção onde vou pedalar.
“Os gnaisses e granitos da Folha Nova Friburgo pertencem, em sua maior parte, ao Terreno Oriental da Faixa Ribeira, representado pelo domínio tectônico costeiro”. Ele está falando do lado da serra que dá para o mar. Vou sair de Nova Friburgo e seguir para Trajano de Moraes, dormir lá e depois descer para Rio das Ostras. Vou pedalar pela vertente que desce para o oceano Atlântico.
De outra vez, fiz com Pedrão Selva a parte de cima e um pouco da outra vertente que o autor descreve assim: “No reverso da escarpa, patamares escalonados em direção ao vale do Rio Paraíba do Sul abrigam o cinturão agrícola que abastece em grande parte a região metropolitana do Rio de Janeiro e as cidades de Nova Friburgo e Teresópolis e concentram um forte polo turístico e industrial”.

Eu e o colega Nelson, de Macaé, vamos ver naqueles altos grandes obras da criação. Sim, porque o plutonismo, a deformação e o metamorfismo neoproterozóico-paleozóico inferior durante o Ciclo Brasiliano delinearam o arcabouço rochoso e as estruturas geológicas da Folha Nova Friburgo”.

segunda-feira, março 14, 2016

Pedalando com técnica, amor e alegria.

Não consegui aprender a tocar violão, apesar de tocar violino desde garoto. Expliquei pra mim mesmo que a dificuldade resultou do professor não me ter ensinado logo a acompanhar alguma música. Ficava só fazendo exercícios e isso não dava prazer.
O mesmo acontece com outra coisa qualquer, inclusive a bicicleta. Se você ficar andando daqui pra li, nos mesmos lugares e no meio do trânsito caótico, então não demora a bike vai ficar enferrujando na garagem. Mas se você sai pedalando livre descobrindo outros caminhos tem uma alegria imensa. Foi o que aconteceu ontem comigo e mais três amigos. Descobrimos um caminho lindo para chegar em Santa Isabel do Rio Preto, passando por cima da serra de Amparo.

Depois de uma tempestade furiosa no dia anterior deixamos o asfalto e enveredamos pela trilha da fazenda Bonsucesso esperando encontrar muito barro, mas a estrada recoberta de sílica estava seca e boa de pedalar.

Começamos a subida. Primeiro se corre pelo pé da serra, depois começa a subida forte. Passamos o sítio de ‘seu’ Osmar Joaquim e pegamos água com o filho dele, Giovani.

Um mar de morros se estendeu diante de nossos olhos e nossa vista alcançava cada vez mais longe no horizonte. 

Lá em cima, onde só um trilho bem marcado mostra o caminho 

encontramos ‘seu’ Osvaldo Marins que todos os dias desce e sobe em seu cavalo levando leite.

Chegamos ao alto e tiramos fotos cheios de orgulho. 

Então viramos a serra e tocamos por uma estrada que vai para Santa Isabel. São subidas e descidas intermináveis. Pegamos um descidão por um trilho estreito com o despenhadeiro bem a nossa direita. Então, depois de rodar 20 km encontramos atoleiros quase intransponíveis. Mas chegamos à cidadezinha e almoçamos uma comida muito gostosa.

Então veio a volta, mas 45 km de asfalto. Porém, tudo isso foi feito com a mesma leveza de quem toca um violão com técnica, amor e alegria. 

domingo, março 06, 2016

PEDAL COME-COME

Em dia de pedalar acorda-se cedo e se toma um café reforçado, porque muitas vezes não se encontra mais nada para comer. Mas o pedal de hoje, domingo 06/03/2016, foi muito diferente, comemos sem parar.

Eu e João Ademar saímos pedalando para Amparo, mas a intenção era chegar ao sítio do amigo Leônidas, em São José do Turvo. No caminho, depois de Santa Cruz, encontramos o amigo Pedrão Selva no meio de jovens ciclistas consertando uma bike. Ele nos disse que não estava com o grupo, mas pedalava sozinho. Coisa rara no caso dele. Foi com a gente.

Em Amparo paramos no posto de gasolina e tomamos café com pão na chapa. Voltamos a rodar entrando numa estrada de chão. Perto do Turvo entramos num caminho de fazenda e subimos. Depois de encontrar uma carroça de boi 

continuamos e chegamos ao sítio. A família nos esperava com um lauto café na mesa. A conversa rolou solta e comemos muito.

Daí saímos para o pomar e colhemos graviola, e comemos, subi no pé de goiabeira, colhi frutos maduros e comemos. 

Então cismei de arrancar um aipim, replantei pedaços do caule, lavei as raízes e deixei com D. Cleuza para cozinhar. Depois o comemos frito e cozido.
Fomos à cachoeira falando de muitos assuntos, inclusive psicologia, e voltamos descansando e conversando na varanda até a dona da casa nos chamar para a mesa onde comemos até fartar. Almoço delicioso. 

Conversa boa rolando chegou doces de leite e de goiaba e queijo Minas bem curado. Uma delícia. A custo levantamos da mesa e conversando nos aprontamos para a volta pedalando. 

Andamos só 70km, mas o que comemos!!!