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domingo, julho 26, 2015

E, deste modo, o tédio fica longe.

Quando viajava para Florianópolis li muito no ônibus. Um dos arquivos foi a tese de doutorado de Arthur Bartholo intitulada A Repetição como Psicologia Experimental, um estudo sobre o pensamento de Soren Kierkegaard

Na p. 9, li:
“O segredo da rotação de cultivos é a variabilidade infinita do finito. O sentido fundante do termo é retirado da agricultura e consiste numa troca de cultivo dentro do mesmo solo; a ‘ilimitada infinidade de mudança, em dimensões extensivas limitadas’. Tudo se dá num limite bem definido, e o que varia propriamente é o método de cultivo e o tipo de colheita; procura-se ‘alívio do tédio na intensidade antes do que na extensão’. Ao contrário do método no qual o tédio é vencido por meio do movimento dentro de uma grande extensão, como o desejo infinito de viajar”.
Percebi lendo isto que ele falava sobre andar de bicicleta.
- Mas zé, Kierkegaard viveu de 1813 a 1855 e a bicicleta foi inventada em 1870!
Quando se lê um texto a mente da gente aplica a informação naquilo que mais nos interessa, no meu caso e naquele momento em que viajava para subir a serra do Rio do Rastro na minha bike, liguei logo a explicação do professor e do filósofo ao ciclismo. 
(na foto, eu, Filipe, Luciano e Fábio - o fotógrafo - estamos indo em direção a Arapeí, SP, passar na fazenda do amigo Fábio, outro; vê se dá pra ficar entediado num visual desses)

Explico-me:

Tenho colegas que fazem o caminho de Volta Redonda à N. Sra do Amparo, Barra Mansa, duas ou três vezes por semana e não se entediam, fazem-no com paixão. Eu me cansaria da mesma paisagem e do mesmo trajeto. (que diferença de estar numa academia de ginástica!)

Por isso estou sempre procurando pedalar em caminhos diferentes, vendo novas paisagens e novas situações. (este caminho nos levou a Bananal, nenhum de nós ainda havia passado nele)

Kierkegaard ensinou que se pode repetir um trabalho ou uma diversão muitas vezes sem sentir tédio se ‘variamos a cultura’. É o seguinte: um sujeito tem um terreno e ora planta feijão ora planta milho, está sempre variando dentro de uma mesmo terreno limitado. 
(nos altos dos morros o horizonte se expande e a gente sente uma liberdade estonteante)

Se não pudesse viajar para andar de bicicleta em outro lugar teria que pedalar nos mesmos lugares procurando diversificar: os colegas, as conversas, as horas do dia, as estações do ano. Assim o mesmo caminho me seria sempre diferente. (você já viu uma arara azul assim, de pertinho?)

E, deste modo, o tédio fica longe.    

segunda-feira, julho 13, 2015

A beleza em volta se agarra a gente.

Quando se vivi dentro da cidade, guiando vagarosamente nas ruas cheias de carro ou indo ao shopping para comprar ou comer, pensa-se que estamos vivendo a verdadeira vida, mas não é. O mundo real é o que existe além das cidades dos homens. 

E vivenciar este mundo nos acrescenta anos de vida.
- Gosto de fazer isso de carro.
É bom, mas de bicicleta é... deixe-me fazer uma comparação: 

você pode ouvir jazz enquanto trabalha ou está no trânsito, mas não é a melhor maneira; para se curtir o jazz é preciso estar num lugar de penumbra e fechado, é uma música que se ouve mergulhando nela. Assim faz a bicicleta. 

Quando se está subindo uma serra pelo próprio esforço, ou girando numa estradinha em meio a uma mata, a beleza em volta se agarra a gente. 

Ficamos impregnados do mundo que nos formou. O ritmo fica mais lento.


O corpo fica mais leve, o intestino trabalha como um relógio, a mente se afasta do ganhar e gastar dinheiro, volta-se a ser o homem antigo.